sábado, 14 de março de 2009

O mito de Procrusto: normalidade a qualquer preço

Procrusto parece ter inspirado o desenvolvimento do padrão de normalidade que regula os conceitos e as práticas presentes no cotidiano da diversidade funcional. Muito citado, o mito é perfeito para ilustrar qualquer situação reducionista ou arbitrária que priorize uma medida convencional em detrimento das diferenças.

Os textos míticos são contraditórios acerca da vida, dos nomes e motivações de Procrusto. Apesar das contradições, a descrição dos seus atos é unânime: ele era um “normalizador” bem intencionado, porém, muito, muito cruel. Sua idéia era acabar com a desigualdade entre os homens, mesmo que para isto tivesse que mutilar a todos.

Em Coridalos, onde morava nosso personagem, havia muitos gigantes. Ele próprio era um gigante. Por lá havia também homens pequenos. Com o tempo, os grandões começaram a subjugar os menores. E Procrusto, metido a benfeitor da humanidade, procurou eliminar a desigualdade entre os moradores de Coridalos. Depois de muito refletir, seu primeiro ato foi mudar o próprio nome: Polípemo tornou-se Procrusto, o “esticador”. O segundo ato foi construir duas camas, uma para os grandes, outra para os pequenos. As duas camas são as famosas “camas de Procrusto”.

Na cama dos pequenos ele colocava os grandes. Na cama dos grandes, colocava os pequenos. As camas foram construídas para igualar os homens. Como os grandões sobravam nas camas pequenas, ele os cortava, amputava (com um machado!) a parte das pernas que sobrava na cama feita para os pequenos. Quando os pequenos deitavam na cama maior, é óbvio, sobrava cama. Procrusto, então, esticava com roldanas o corpo dos pequenos. Para o “esticador”, não haveria mais motivos para uns subjugarem outros. Depois de deitar nas camas de Procrusto, todos tinham o mesmo tamanho. E todos estavam igualmente mutilados.

Atualmente vivemos todos submetidos às camas de Procrusto. É exigido de todas as pessoas que sejam jovens, bem sucedidas, magras, alegres, dinâmicas... é exigido ainda que gostem das mesmas coisas, que vistam as mesmas roupas, que pensem da mesma forma (ou, não pensem!)... A lista é infinita! E as camas de Procrusto são os cremes, as dietas, as cirurgias plásticas, o sucesso, as academias, os prozacs... a lista também é infinita, mas, passemos à “normalidade”, a bendita normalidade que determina a forma “correta” de funcionamento do corpo. Hoje em dia, há todo um aparato técnico a serviço de Procrusto. Olhe à sua volta e verá! Talvez dentro da sua própria casa. Na clínica que você freqüenta. Em sua escola, no seu trabalho, nas ruas e equipamentos urbanos...

Se Procrusto saltasse da mitologia grega para a nossa realidade, ele diria que temos todos que funcionar da mesma maneira. Diria ainda que o preconceito e a discriminação social SÃO causados pela diversidade funcional. Em seguida, e com requinte de crueldade, faria todos funcionarem da mesma forma: Todos tem que caber nas portas estreitas; todos tem que andar com as pernas, e de pé; todos tem que enxergar com os olhos; todos tem que ouvir com os ouvidos; todos tem que aprender com um único projeto pedagógico e assim por diante. No mundo de Procrusto, a igualdade é o que há de melhor para a humanidade, por isso ela é compulsória.

No próximo texto saberemos mais sobre Procrusto, o normalizador...

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Palavras-chave: mitologia e deficiência; mitologia grega; Procrusto; normaliade; diversidade funcional; diferença funcional; pessoas com deficiência; pessoas portadoras de deficiência; pessoas deficientes; Ray Pereira.


Um comentário:

deise disse...

Muito bom o seu texto. Fiz uso do mesmo mito para escrever um artigo que será utilizado para estudos com educadores.Sua reflexão a respeito de diversidade funcional será muito importante para a revisão deste artigo.Parabéns