quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Diferença funcional e tecnologia (Parte 2)

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A invenção do manual
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Até a Idade Média, questões como doença e diferença funcional eram explicadas com base em argumentos religiosos. Acreditava-se que forças maléficas (e, algumas vezes, benéficas) poderiam causar danos ao corpo, especialmente doenças e deformações.

Com o avanço da medicina e as teorias de Isaac Newton (1643-1727), a concepção de “deficiência” passou a ter contornos muito diferentes daqueles conhecidos até então. A visão mecanicista do universo, herança direta de Newton, fez emergir um resultado desastroso para a questão da diferença, pois o corpo também passou a ser visto e tratado como uma máquina.

O novo modelo científico de corpo transformou as doenças, as diferenças e as excepcionalidades em disfunção (algo ali não estaria funcionando, daí a “disfunção”). Assim, as várias condições consideradas “adversas” ao funcionamento NORMAL do corpo passaram a ser tratadas como uma disfunção em algum componente dessa máquina chamada corpo. Daí em diante, as diferenças funcionais se transformaram em disfuncionalidade, desvio e anormalidade.

A influência da ciência naquele momento era tão expressiva que mesmo a autoridade da Igreja passou a ser questionada e superada. A título de exemplo, o Geocentrismo (teoria que considerava a terra como o centro fixo do sistema solar e do universo criado) era o modelo de universo referendado pela Igreja. O Geocentrismo foi superado e a Ciência Moderna colocou no seu lugar o Heliocentrismo, depois de comprovar que a terra orbitava em torno do sol. Este sim, fixo.

Antes, a Igreja acreditava que as “deficiências” eram produzidas por alguma razão, força ou influência espiritual. Veio a Ciência Moderna e disse: “Não há força espiritual alguma. É apenas um corpo que não funciona como manda o manual de NORMALIDADE da Ciência Moderna”.

Para pensar na companhia do seu travesseiro:

Você que possui uma diferença funcional, qualquer que seja, acha mesmo que você é uma máquina com defeito?

Haverá alguma relação entre o padrão de normalidade e as pesquisas com células-tronco, em cibernética e outros ramos tecnológicos?

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Palavras-chave: tecnologia e deficiência; padrão de normalidade; diversidade funcional; diferença funcional; pessoas com deficiência; pessoas portadoras de deficiência; pessoas deficientes.

Um comentário:

kekel - Márcia Raquel disse...

Você que possui uma diferença funcional, qualquer que seja, acha mesmo que você é uma máquina com defeito?

Claro que não estou com defeito apesar da condropatia, sinovite, artrose e tendinite em meus joelhos que me fazem caminhar com minhas muletas encantadas. Defeituosos estão os olhares que não enxergam o potencial que tenho. E vou faceira estrada a fora, linda, sorridente e com trilha sonora (meu mp3 sempre ligadinho), mostrando para mim mesma que posso e que chego onde quero. Passei da fase que tinha que provar para os outros.

Muito bom teu texto, estou indo para a parte 3. Só para saber como cheguei aqui...navegando na net em busca de fontes para meu TCC.

Abraços fraternos